domingo, 31 de outubro de 2010

Pneuma... segunda parte

Nessa hora, as esferas ficaram visíveis com suas tonalidades diversas.
Escadas partiam dos cantos e não eram feitas por degraus inatingíveis.
A carne não mais estava como casa da consciência.
O corpo era feito dos ventos.
Um só com ele...e a hora chegada da aceitação do novo estado.
Mais que compreender, ele estava na transparência de existir...Isso era o início do amor.
A visão era de uma cascata de águas brancas e profundas descendo dos céus.
Não tinha lugar para receios.
Ali, novamente os sinais das transposições.
Ele ia atravessar o caminho das águas.
Um roteiro sem volta e sem dor.
A dor ficou no físico.
Uma consciência conquistada.
Será uma parte do paraíso?

Sem se importar com respostas, as passagens das águas tomavam o momento por inteiro.
Os passos seguiam calmos e reveladores.
A revelação perdera a tradução.
As letras foram se soltando e aos poucos desnudando a propria palavra.
Eis a impermanência!
Tudo passou a vir do centro de um lago de águas da cor de um ouro redescoberto.
Depois de abertos os portais do seu corpo...
depois da passagem pelos portões do grande bosque...
ele continuou viajante
em busca da humanidade
mais fecunda.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

...Pneuma...

Ele chegou diante dos portões do grande bosque.
Não trazia nada em suas mãos.
No rosto, a palidez da desesperança tomava os seus olhos.
Os cabelos molhados estavam desalinhados pelos sucessivos serenos.
Só uma percepção se mantinha...a chegada do seu corpo com as milhões de palavras mal arrumadas em seu cérebro que já não passava de um velho e cansado processador sem nenhum recurso.
Procurava aonde tocar para chamar atenção a frente daquele portão tão fora de propósito a primeira vista, quando um ser feminino com passos de uma leveza inigualável
vinha ao seu encontro.

Não havia lugar para susto e nem medo.
Seu corpo era coberto com um tecido feito das folhas do vento.
Inexplicavelmente, o vento monta e remonta a natureza de Deus.
A proximidade causou-lhes uma espécie de fenda de luz no espaço.
O espaço era criado pelo corpo e pelo olhar que surgia do corpo e que, de alguma forma impossibilitava a chegada de toda e qualquer palavra...
Os olhares faiscavam como se fosse um reconhecimento necessário
naquela instância do caminho.

Vieram jogos de cores e a cor mais proeminente do fogo.
De repente, do alto da copa de uma árvore cai uma chama - o portão se abriu -
Ele foi guiado pela aura.
Seu corpo era o testamento vivo de tudo o que se vai pelo não dito.
Árvores densas, plantações viçosas, pedras de todos os tamanhos, véus de cachoeiras brancas de águas multicoloridas, rios longos e distanciados de suas fontes...
Musgos, limos, ausências, abstrações, subjetividades e o ser feminino a frente dele com passos sem tocar o chão.
Aturdido pela nova experiência ele estava sem as horas e sem o amanhã.
Era indubitável continuar o caminho.
Era o não dito como uma música que o fazia andar.
Mais tarde, o ser tornara-se menos denso.
Com a consciência ampliada e o corpo contorcionado pelas vias e artérias do mundo, ele posicionou em um canto iluminado pelas luzes das lanternas da alma que sempre ligam e desligam, as linhas escritas da sua última história.

Um pássaro semelhante a uma águia cruzou os céus em um vôo muito próximo dos dois.
A proximidade fez com que as magnólias se soltassem
e chovessem sobre eles um outro olhar.

No átimo de segundo em que ele cerra seus olhos e os abre, o ser a sua frente desmancha-se em um redemoinho de ventos.
Ao se olhar, seu corpo está coberto pelas vestes do vento.